Encurralada, a esquerda brasileira precisa radicalizar a luta anti-imperialista

Encurralada, a esquerda brasileira precisa radicalizar a luta anti-imperialista

Ser de esquerda é uma jornada complexa, distante de simplificações superficiais. Não se resume a uma mera escolha de vestimenta vermelha ou a entoar slogans partidários.

Por Ricardo Guerra 

Nesse  momento tão grave de destruição da nossa soberania, destituição dos nossos direitos sociais, desnacionalização das nossas riquezas naturais e reprimarização da economia, mais uma vez voltamos a falar o quanto a esquerda brasileira encontra-se perdida e cada vez mais distante da perspectiva combativa que já lhe caracterizou o passado:

Sem o domínio da narrativa dos fatos e dos acontecimentos políticos que realmente interessam, a esquerda brasileira hoje se preocupa apenas com a formalidade institucional:

Dessa forma, apequenada – como já dito em outras oportunidades – a esquerda vem se configurando um arremedo do partido democrata estadunidense:

Os movimentos identitários, por sua vez, contextualizados completamente fora da realidade do Brasil (um país tido como de costumes conservadores – no qual a hipocrisia campeia) foram, e ainda continuam a ser, facilmente manipulados pelas forças que querem criar uma situação para o avanço dos ataques do Imperialismo:

Foi assim que, usando e abusando do processo de criação de discórdias e instigando uma acirrada competição entre os setores ditos conservadores e progressistas da sociedade, a direita criou o “fantástico” mundo das fakes news para promover debates sobre moral e costumes:

O identitarismo, em sua radicalidade, em nada agrega à luta anti-imperialista e à combatividade em prol da luta dos trabalhadores, portanto:

  • Quanto mais se deixar levar por esse contexto de competição, criado justamente para gerar polarização e desencadear uma disputa (cismogênese) restrita ao terreno do embate moral;
  • A esquerda dissipará energias que deveria canalizar para lutar em favor da defesa da nossa soberania, da proteção do nosso patrimônio público, financeiro e estatal e pela construção de um projeto de desenvolvimento nacional colocado a serviço de todos os brasileiros.

Com uma parcela significativa dos seus representantes agindo assim, a esquerda permitiu ser caracterizada como cruel representante de uma “ideologia vilã” (doutrinadora do mal) e virou um alvo fácil à disposição do malho dos hipócritas, dos vendilhões da fé e dos “fundamentalistas” de plantão, pseudo defensores do bem:

  • Radicalizada em torno do identitarismo, a esquerda foi perdendo a credibilidade não só com os setores mais conservadores da sociedade, particularmente a classe média;
  • Mas, também, com significativo descontentamento de parcela do campo popular, nesse caso (também), por deixar de fora (ou na melhor das hipóteses, em segundo plano) as bandeiras de luta vinculadas às causas dos trabalhadores.

Enquanto o identitarismo for reduzindo o espírito de luta da esquerda ao campo individual e de grupos, e a luta de classes for sendo ignorada pela esquerda:

  • A política nacional vai continuar entregue (de mão beijada) a um grupo tão ferrenhamente alinhado aos interesses das finanças globais e completamente opostos às necessidades do Brasil e aos interesses do povo brasileiro;
  • Cuja estratégia genocida penaliza as prioridades tanto da classe média, quanto dos pobres – com a renda do capital especulativo sendo menos tributada que a do capital produtivo, que gera riqueza e trabalho;
  • Praticamente inviabilizando qualquer possibilidade futura de desenvolvimento soberano do nosso país – enquanto o congresso, a cada eleição majoritariamente sendo formado por entreguistas (pseudo moralistas e pseudo nacionalistas, vendilhões  da pátria), vai garantindo a perpetuação desse ciclo – no qual poucos (menos de 1% da população) ficam cada vez mais ricos e muitos (os outros 99%) cada vez mais pobres.

Sob o ideário neoliberal, o Brasil (submetido ao cerco imperialista) sobrevive pagando as maiores taxas de juros do planeta aos especuladores financeiros e, de acordo com os dados oficiais do IBGE, a economia do país circunscreve-se basicamente ao campo extrativista e do chamado»agronegócio», permanecendo na base primária da economia – como nos tempos da colonização portuguesa:

  • Em 40 anos de desindustrialização contínua, o Brasil vem priorizando a exportação de meia dúzia de matérias primas (commodities) para abastecer  as economias centrais, sem gerar valor agregado a esses produtos – que, além de tudo, são generosamente subsidiados com a isenção de impostos;
  • E cujo superávit comercial é destinado para manter a rolagem do ultra corrupto e nunca auditado sistema da dívida pública nacional (ver aqui, e aqui);
  • Fechando esse processo, temos a questão das exportações das commodities serem  realizadas por meio das bolsas mercantis e de futuro, com o objetivo exatamente de servir como base à especulação financeira mundial, controlada principalmente pelo imperialismo estadunidense.

Não restam dúvidas que a radicalização pelo identitarismo foi um caminho taticamente ineficaz trilhado pela esquerda:

Contra essa obscena submissão das oligarquias locais aos interesses do império estadunidense, cabe aos trabalhadores e a seus representantes, no âmbito dos partidos, sindicatos, associações comunitárias e demais organizações (nos locais de moradia e de trabalho):

  • Vigorosamente impulsionar a luta coletiva pela base;
  • Elevando, de forma conjunta, o conhecimento, a organização e a mobilização para a luta anti-imperialista.

Precisamos menos de identitarismo radical e mais da defesa de bandeiras que contribuam para fortalecer a luta anti-imperialista, tais como: 

  • Lutar pela revogação da Reforma Trabalhista e da Reforma da Previdência Social e pela reversão das privatizações das empresas estratégicas para o desenvolvimento nacional;
  • Lutar pelo cancelamento e a auditoria da criminosa dívida pública, que hoje consome mais de 40% do Orçamento Público Nacional;
  • Lutar pelo direcionamento da economia para as atividades produtivas e a coibição das atividades relacionadas a especulação financeira;
  • Cobrar a repatriação de mais de US$ 500 bilhões escondidos em paraísos fiscais por super ricos;
  • Exigir a garantia da gratuidade de serviços básicos universais como saúde, educação e transporte de qualidade;
  • Lutar para que efetivamente as grandes fortunas sejam sobretaxadas…;
  • Bandeiras não vão faltar.

É impossível à esquerda, ignorar os condicionantes identitários que interferem na capacidade de determinados grupos para o exercício da sua cidadania – estes condicionantes estão intimamente ligados à necessidade desses grupos passarem a ter os seus direitos básicos, como oportunidades de emprego e acesso à saúde, à educação e à segurança, legalmente reconhecidos:

A direita conseguiu “colar” na esquerda a marca de destruidora dos valores da família, da religião e dos costumes,  conceito que não condiz com a realidade da esquerda verdadeiramente combativa, e a realidade é que, de braços dados com o identitarismo, a esquerda resolveu apenas se preocupar com eleições:

  • Assim, a plutocracia está conseguindo efetivar seu colonizado projeto de poder de longo prazo (com o congresso, com os militares, com tudo), sem sofrer qualquer esboço de enfrentamento mais contundente;
  • Ficando a população brasileira abandonada à sua própria sorte, tendo basicamente nos aplicativos e na informalidade as únicas oportunidades de “ganhar o pão”, sem garantia de direitos e seguridade, e ainda sendo induzidos a acreditar que isso é bom – que dessa forma são empreendedores (ver aqui).

Para se ter uma ideia da gravidade da situação e o quanto a desigualdade aumentou com o aprofundamento da implantação das políticas neoliberais no Brasil, com o Estado brasileiro sendo destituído do seu papel de promotor da cidadania e indutor do desenvolvimento humano, social e econômico do país:

  • No ano de 2022 aproximadamente 11 milhões de jovens brasileiros (entre 15 e 29 anos) nem estudavam nem trabalhavam – caracterizando a lastimável tragédia social denominada nem-nem (ver aqui e aqui);
  • Verdadeira vergonha nacional, que reflete a falta de oportunidades reforçando um quadro praticamente irreversível para a condição de pobreza;
  • E a quase impossível perspectiva de mobilidade social ascendente para esses jovens, escancarando a farsa que representa o conceito de meritocracia – um dos pilares da ideologia neoliberal.

Não se trata de negar a importância das lutas estabelecidas pelos movimentos identitários, mas refletir sobre a sua condução a uma radicalização desnecessária:

Enfim, encurralada pelas armadilhas da direita, faz tempo que a esquerda se esquece de lutar pelo Brasil, pelos trabalhadores e pelo povo brasileiro e o que realmente precisa radicalizar nesse momento é a luta anti-imperialista:

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