Carnaval, literatura, música e cultura popular

Carnaval, literatura, música e cultura popular

O Carnaval não é apenas festa, é também resistência e expressão social. Na Bahia, manifestações como Afoxés e blocos Afro reafirmam a identidade afro-brasileira. No Rio, reflete as nuances sociais. Em Pernambuco, ritmos como frevo e maracatu carregam a história da luta contra o sistema!

O Carnaval baiano: Carnaval, literatura, música e cultura popular

O Carnaval na Bahia traz marcas da ancestralidade negra. Os Afoxés, cujos membros trouxeram sua cosmologia religiosa afro-brasileira para a procissão carnavalesca, mantiveram suas raízes africanas, arrastando o povo ao som do Ijexá (ritmo tocado em homenagem aos orixás ou divindades afro).

No estado da Bahia, o Afoxé é formado principalmente por pessoas ligadas aos preceitos do Candomblé. O escritor Jorge Amado, no livro “Tenda dos Milagres”, apresenta uma bela descrição deste momento.

“(…) jamais se concebera e vira Afoxé assim (…) ousara, pois trouxe às ruas a República dos Palmares armada em guerra, os heroicos combatentes e Zumbi, seu chefe e comandante (…). Foi assim a primeira e última apresentação, o desfile único do Afoxé ‘Os Filhos da Bahia’, trazendo à rua Zumbi dos Palmares e seus com batentes invencíveis. Um boleguim gritava ordem: prendam aquele pardo, ele é o cabeça de tudo. Mas o pardo cabeça de tudo, Archanjo, sumira num beco, ladeira abaixo, com mais dois” (p. 67/68).

Os blocos Afro do Carnaval baiano são grupos carnavalescos que trazem em suas músicas e vestimentas a herança africana, com destaque para: Malê Debalê, Cortejo Afro e Ilê Aiyê e Filhos de Gandy.

Até a década de 1950, o Carnaval em Salvador era festejado na Baixa dos Sapateiros (Pelourinho). A festa dos “negros” era embalada pelos grupos Embaixada Africana e Pândegos D’África. O divisor de água da Folia de Momo veio mesmo em 1950, com o surgimento do trio elétrico.

Em 1950, Adolfo Dodô Nascimento e Osmar Álvares Macêdo, mais conhecidos como Dodô e Osmar, respectivamente, criaram a “Fobica”, um calhambeque aberto, adaptado para apresentações musicais.

Os músicos decidiram sair pelas ruas de Salvador para tocarem suas músicas. Deste experimento, nasceu o trio elétrico. Em 1969, a canção de Caetano Veloso, chamada “Atrás do trio elétrico” acabou por popularizar o som das guitarras baianas em todo o país. Hoje, o trio elétrico é uma das principais atrações do Carnaval da Bahia.

Na década de 1980, surgiu o Axé Music, fruto principalmente da fusão Afoxé, do Frevo e Maracatu. Como principais expoentes: Luiz Caldas, Daniela Mercury, Carlinhos Brow etc.

Concomitantemente, sob a influência das letras e canções de Bob Marley, surgiu no Olodum – sob a batuta do mestre Neguinho do Samba -, um ritmo que misturava reggae e samba, num estilo com forte caráter de afirmação da negritude: o samba-reggae.

Carnaval Rio de Janeiro

O malandro

O Carnaval do Rio de Janeiro está associado à boemia, sendo a figura do malandro um dos elementos mais emblemáticos. O romance “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, é de certa forma, uma certidão de nascimento da vida boêmia do Rio de Janeiro. No protagonista, Leonardo, é reconhecidamente a figura do malandro. Sua origem é cômica: “filho de uma pisadela e de um beliscão”, passa a vida tentando sobreviver à margem das instituições sociais, as quais não consegue se enquadrar – família, trabalho, igreja etc. 

Para o teórico Antônio Cândido: “Leonardo é o primeiro e grande malandro que entra na novelística brasileira, vindo de uma tradição quase folclórica e correspondendo, mais do que se costuma dizer, a certa atmosfera cômica e popularesca de seu tempo, no Brasil” (CÂNDIDO, 1970).

O protagonista do romance se apresenta como uma versão carnavalizada do herói romântico. Para Bakhtin, a carnavalização literária pode ser um desvio e também uma inversão dos costumes consagrados.

As marchinhas

As marchinhas carnavalescas deram o tom da festa entre as décadas de 1930 e 1940. Mas o ritmo surgiu ainda no final do século XIX. «Ó Abre Alas» é considerada a primeira canção escrita especialmente para um bloco de Carnaval. A «música para dançar» foi composta pela maestrina Chiquinha Gonzaga, em 1899, para o bloco carnavalesco Rosa de Ouro, do Andaraí, no Rio de Janeiro.

Escolas de Samba

As bases das Escolas de Samba surgiram nos anos de 1920 com os sambistas do Estácio, entre eles Ismael Silva, que organizaram a “Escola Deixa Falar” e o primeiro concurso de sambas, em 1929.

Em 1932, aconteceu o primeiro desfile das agremiações, na Praça 11, no qual participaram 19 grupos. O concurso estabeleceu alguns critérios de julgamento e elementos mínimos para o desfile, como a Ala das Baianas e o Samba Enredo, que podem ser consideradas peças de literatura, pois são feitos para narrarem uma história que está sendo desfilada.

Não poderíamos deixar de destacar a figura ilustre de Cartola que foi o fundador da primeira escola campeã: a Estação Primeira de Mangueira. Cartola também foi o primeiro compositor de sambas enredo. Outra importante contribuição para a música brasileira foi o projeto Zicartola, que se tornou um marco por proporcionar o encontro entre sambistas do morro com compositores e músicos de classe média, especialmente ligados à Bossa Nova, que nasceu nos anos 50.

A cultura popular

O Carnaval de Pernambuco é marcado pela cultura popular. Os ritmos mais comuns são o Frevo, o Maracatu, a Ciranda, o Coco, o Manguebeat. Sua origem está diretamente ligada ao surgimento de clubes carnavalescos como, por exemplo, o Clube Carnavalesco Misto Lenhadores (origem em 1907) e o Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas (origem em 1912).

Bonecos de Olinda

A tradição dos desfiles de bonecos surgiu no começo da década de 30, com o primeiro desfile do boneco «Homem da Meia-Noite», que saiu às ruas da cidade para animar o carnaval. Esses bonecos são uma herança europeia e têm sua origem nas procissões do século XV, nas quais os bonecos acompanhavam os cortejos religiosos da corte portuguesa.

Frevo

O Frevo é uma dança centenária que teve origem nos movimentos da Capoeira. A estilização dos passos foi resultado da perseguição da Polícia aos capoeiras, que aos poucos sumiram das ruas, dando lugar aos passistas.

Operários urbanos organizaram as primeiras agremiações nos bairros populares, disputando espaço com os clubes de alegoria e críticas, que abrigavam as oligarquias locais e pretendiam mostrar um carnaval culto e sem espaço para os pobres.

Maracatu

O Maracatu como manifestação artística apresenta-se com uma indumentária europeia e um espírito africano. Uma autêntica nação. Busca a identidade do povo e a dignidade do indivíduo. Alegre e solene, é tradicionalmente fundamentado numa religião afro-brasileira: o candomblé. Seus símbolos e divindades orientam os passos do cortejo. De acordo com o professor de literatura da UFRJ, Fred Góes, “a noite dos tambores silenciosos é literatura em prática, pelo seu caráter poético” (Jornal Futura).

Ciranda

A Ciranda é uma dança de origem portuguesa, muito conhecida no início do século XIX. Há várias interpretações para a palavra «Ciranda», mas parece ter sua origem no vocábulo espanhol “Zaranda” (instrumento de peneirar farinha).

A Ciranda é uma dança típica das praias, que começou a aparecer no litoral norte de Pernambuco, espalhando-se por todo o estado e por outras regiões (Paraíba, Alagoas etc.). Seus participantes eram basicamente trabalhadores rurais, pescadores e operários de construção. É uma manifestação bastante comunitária, não tendo nenhum preconceito quanto ao sexo, cor, idade, condição social ou econômica dos participantes.

A Ciranda é uma dança em forma de roda. No centro fica o mestre, o contramestre e os músicos, improvisando cantigas e tocando os instrumentos. A mais famosa Ciranda de Pernambuco é a “Ciranda de Lia da ilha de Itamaracá”.

O ritmo é simples, lento, com o compasso bem marcado por um toque grave da Zabumba (ou Bumbo) na cabeça do compasso e toques abafados nos outros tempos, acompanhado pelo Tarol, o Ganzá, o Maracá, todos instrumentos de percussão. A letra é de melodia simples e normalmente com estribilho, para facilitar o acompanhamento. Ela é entoada pelo mestre cirandeiro, acompanhada pelos tocadores e pelos dançarinos.

Coco

A dança do Coco teve sua origem na união da cultura negra com os povos indígenas no Brasil. Apesar de frequente no litoral, acredita-se que o Coco surgiu no interior, provavelmente nos quilombos, a partir do ritmo originado da quebra dos cocos para a retirada da amêndoa. Com sua dança e tradição musical cantada, tornou-se um modo privilegiado de transmissão e manutenção do conhecimento e da tradição popular. Um dos maiores nomes desta manifestação cultural é o paraibano Jackson do Pandeiro.

O ritmo contagiante da cultura popular influenciou muitos compositores populares como Chico Science e Alceu Valença.

Maguebeat

O Movimento Manguebeat desenvolveu-se em Recife, a partir de 1991, e consistiu em uma “cena cultural” que misturava elementos da cultura regional de Pernambuco, o maracatu rural e com a cultura pop, sobretudo o rock’n roll e o hip-hop.

O termo “manguebeat” é fruto de uma junção da palavra mangue, que designa um ecossistema típico da costa do nordeste brasileiro e da cidade de Recife, com a palavra beat, do inglês, que significa batida.

O principal manifesto desse movimento cultural, escrito por Fred Zero Quatro, tem o título de “Caranguejos com cérebro”. De acordo com o manifesto “Hoje, Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em hip-hop, colapso da modernidade, Caos, ataques de predadores marítimos (principalmente tubarões), moda, Jackson do Pandeiro, Josué de Castro, rádio, sexo não-virtual, sabotagem, música de rua, conflitos étnicos, midiotia, Malcom Maclaren, Os Simpsons e todos os avanços da química aplicados no terreno da alteração e expansão da consciência.” (Trecho de “Caranguejos com cérebro”).

As ideias do manifesto estão expressas nas letras das músicas da banda: “Chico Science e Nação Zumbi”. Uma das composições mais famosas chama-se “Da lama ao caos”.

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