A prisão de Lula, a direita golpista, o governo do PT e os trabalhadores

A prisão de Lula, a direita golpista, o governo do PT e os trabalhadores

Quais os interesses em jogo e qual é a saída para o aprofundamento da crise capitalista no Brasil?

  1. Na sexta-feira 4 de março de 2016, o então ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva foi preso de forma truculenta pela Polícia Federal, que atuou obedecendo ordens do então juiz Sérgio Moro, o homem da direita encarregado de conduzir a Operação Lava Jato. A “condução coercitiva”, seja pela razão do ex-presidente não se negar a depor na polícia ou, mais ainda, por todo o contexto político que envolveu o caso, representou uma ação política dos órgãos que estão a serviço do imperialismo – o poder judiciário, os monopólios da imprensa burguesa, a justiça e do aparato de repressão do Estado.
  2. A prisão do líder petista não se deu por acaso. Uma série de acontecimentos a precederam e indicavam que a Operação Lava Jato caminhava para isso. Dez dias antes da prisão, assistimos às delações premiadas de executivos do primeiro escalão de grandes empreiteiras Odebrecht e OAS) tentando envolver Lula e o Planalto no esquema de corrupção na Petrobrás. Foi seguida da prisão do marqueteiro petista João Santana e de sua mulher, e do vazamento (realizado pela Revista Isto É) do acordo de delação premiada do ex líder do PT no Senado, Delcídio Amaral, embora que não confirmado pelo próprio Delcídio. A campanha da imprensa capitalista acelerou-se após a demissão do ministro da Justiça José Eduardo Cardoso, homem de confiança da direita.
  3. No dia após a prisão de Lula, a sede do PT de Belo Horizonte sofreu um atentado, assim como o Instituto Lula em São Paulo, que amanheceu pichado com palavras de ordem da direita. Diante da prisão de Lula, milhares de militantes petistas e do movimento de massas se manifestaram em todo o Brasil. A ação mostrou a disposição em resistir ao golpismo e à truculência da direita. Entre as manifestações, vimos ações combativas de ativistas e trabalhadores contra grupos da direita.
  4. No entanto, Lula e a direção do PT propuseram mais do mesmo cretinismo eleitoral para reagir à escalada desses ataques. Os atos de rua convocados para os dias 8, 13 e 31 de março deveriam ter como eixo se contrapor à direita por meio do lançamento da campanha Lula 2018. Os atos em apoio ao governo Dilma, contra o impeachment, representaram uma manifestação de força controlada no ano anterior. No entanto, mostraram a paralisia do PT e da burocracia sindical para mobilizar, que se concentraram em contratar figurantes em grande número além da paralisia posterior aos atos.
  5. Enquanto chamou os militantes à mobilização, a Frente Popular continuou negociando acordos nos bastidores na esperança de que a situação se estabilizasse e que tudo caminhasse para o desfecho da candidatura Lula em 2018.
  6. A oposição à direita requeria uma política revolucionária que passava, em primeiro lugar, pelo entendimento da evolução da atual conjuntura política no Brasil, na América Latina, nos Estados Unidos e no mundo.

O aprofundamento da crise capitalista

  1. O aprofundamento da crise capitalista aumentou os esforços do imperialismo para fazer com que os povos de todo o mundo, em particular a classe trabalhadora, pagassem o preço e que os grandes monopólios mantivessem os lucros.
  2. No Brasil, os mecanismos de contenção da crise capitalista, que estourou em 2008, começaram a apresentar sérias rachaduras em 2012 e, com maior intensidade, a partir do final de 2014. As mesmas tendências aconteceram em escala mundial, quando os obscenos repasses de recursos públicos para as grandes empresas e a inundação do mercado com crédito público provocaram bolhas gigantescas, o esgotamento do chamado “superciclo” das commodities, com a enorme queda dos preços das matérias primas, e a escalada da recessão. À queda gigantesca dos preços do minério de ferro e do petróleo, se somou a queda dos preços das matérias primas agrícolas e agropecuárias. O superávit da balança comercial brasileira, em 2015, teve na base, em primeiro lugar, a queda das importações, das quais a economia ficou dependente de maneira umbilical devido à desaceleração industrial provocada pelo direcionamento do país para a produção e exportação especulativa de meia dúzia de matérias primas.
  3. Depois de setembro de 2008, o governo da Frente Popular, encabeçado pelo PT, direcionou um grande volume de recursos públicos, para as grandes empresas, por meio de créditos ao consumidor e o Bndes (Banco Nacional de Desenvolvimento), o aumento da especulação com a dívida pública e o aumento da camada parasitária de impostos e juros. Esses recursos públicos e a exportação de matérias primas foram os dois pilares de sustentação da economia nacional que criaram a ilusão de que o Brasil passaria incólume pela crise que atingia em cheio os centros. Como Lula disse, “a crise chegou ao Brasil como uma marolinha”, enquanto o país era devastado pela exploração hiper depredadora em prol das matérias primas. Uma espécie de volta à época colonial, que levou o Brasil a tornar-se o campeão mundial no uso de agrotóxicos, o vice campeão mundial no uso de transgênicos, que trouxe acidentes escandalosos como o recente caso da Samarco em Minas Gerais, que ameaça acabar com o Amazonas e o Pantanal devido à construção desenfreada e especulativa de hidroelétricas, que abriu o país à produção hiper depredadora do xisto etc etc.
  4. Em 2013, o governo Dilma, durante a gestão do então ministro da Fazenda Guido Mantega, abriu um novo período no repasse de recursos públicos, por meio da concessão de diversas isenções aos fabricantes da “linha branca”, e outros, com o objetivo de evitar a bancarrota generalizada devido ao aumento do contágio da crise capitalista mundial.
  5. Todas essas medidas entraram em colapso em 2016. E tal colapso levou o Brasil à linha de frente da crise capitalista mundial. E era apenas do aperitivo. O prato forte viria com o estouro de um novo colapso capitalista mundial, que ficou colocado para o período seguinte nos grandes centros e que deveria ser muito pior que todos os anteriores devido ao brutal parasitismo e ao super endividamento dos estados burgueses. Foi contido de maneira muito artificial primeiro por meio da “pandemia» e dois anos depois por meio da guerra em Ucrânia, possibilitando trilionários repasses de recursos públicos às grandes empresas e o funcionamento a todo vapor do complexo industria militar.
  6. De acordo com os índices oficiais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), o PIB caiu 1,7% no terceiro trimestre de 2015, em relação ao trimestre anterior, quando a queda tinha sido a maior das últimas décadas. Em 2015, a contração (oficial) da economia foi de aproximadamente -4% e, para este ano, a expectativa é de nova contração de -6%. As pressões inflacionárias cresceram sem parar. De acordo com as estatísticas oficiais, a inflação fechou, em 2015, acima dos 10%, com a expectativa de que 2016 seria ainda pior. A principal meta imposta sobre o Brasil, pelo imperialismo, o chamado superávit primário (recursos destinado ao pagamento dos juros da dívida pública), estava implodida por um déficit primário de R$ 104,4 bilhões, com a subida, em um ano, de 0,48% do PIB para 10,82%.
  7. Para sustentar os lucros dos capitalistas, principalmente o dos monopólios, a dívida pública (oficial) disparou para 67% e continuou aumentando de maneira muito acelerada, enquanto os grandes bancos, principalmente internacionais, os chamados “primary dealers” (ou “negociadores primários) continuam obtendo suculentos lucros com taxas de juros muito superiores à oficial. As três principais agências qualificadoras de riscos, que são controladas pelos monopólios, colocaram o Brasil no status lixo, o que implicou na disparada das dificuldades para o governo captar recursos e fechar as contas.
  8. Em 2015, o déficit nas contas correntes (a diferença entre tudo o que entra e tudo o que sai do Brasil) foi de US$ 92 bilhões, dos quais somente US$ 66 bilhões foi fechado com os chamados IEDs (Investimentos Estrangeiros Diretos), que já são muito especulativos. O restante foi fechado com capitais ainda mais especulativos, os chamados capitais andorinha.
  9. O Brasil segue nesse momento na linha de frente da crise capitalista internacional e essa situação tende a se agravar. O pagamento dos serviços da ultra corrupta dívida pública brasileira é insustentável, por exemplo, manter-se a política ultra entreguista atual, e que já consome mais de 44% do Orçamento Público Federal de acordo com a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentária) enviada para aprovação ao Congresso. As altas taxas de juros brasileiras representam um caso único no mundo, ou o único lugar onde ainda há “perú com farofa”, como a direita brasileira gosta de dizer parafraseando o ex ministro da Fazenda da ditadura, Delfim Neto. Um fardo tão grande, que junto com os impostos, inviabilizam qualquer possibilidade de desenvolvimento do Brasil. Nos principais países, foram adotadas taxas de juros negativas, ou seja os monopólios são remunerados por obterem empréstimos, que são aplicados fundamentalmente na especulação financeira, tal o grau de parasitismo. O endividamento se generalizou alcançando níveis estratosféricos em escala mundial, enquanto a economia produtiva entrou em recessão. Hoje, somente os ultra nefastos derivativos financeiros movimentam, segundo a imprensa especializada, nada menos que US$ 700 trilhões, ou dez vezes o PIB mundial, mas, muito provavelmente, o volume seja muito maior.
  10. Esses mecanismos especulativos continuam ativos até e a perspectiva é que implodam e, de manter-se as amarrações impostas pelo imperialismo, restarão duas opções, a moratória ou a hiperinflação. De acordo com o líder da Revolução Russa, Vladimir I. Lenin, não há nada mais revolucionário que a inflação.

O PT e a direita: os ataques contra os trabalhadores na base do golpismo

  1. O aprofundamento da crise capitalista está por trás da pressão do imperialismo para atacar os trabalhadores e salvar os lucros dos monopólios capitalistas. A crise política, deflagrada há algum tempo, tem relação, justamente, com a incapacidade do PT em impor ataques contra os trabalhadores à altura do que é exigido pelo imperialismo norte-americano em primeiro lugar. As políticas de Dilma Rousseff, embora tenham afetado muito os trabalhadores, foram consideradas insuficientes, erráticas, inconsistentes e incapazes de manter os lucros.
  2. Mesmo capitulando sistematicamente ao imperialismo e adotando diversas medidas anti-povo, o governo petista, devido à base social, não conseguiu avançar na profundidade requerida pelos abutres capitalistas. Contando com o apoio de importantes organizações do movimento de massas, como a CUT, o MST e a UNE, mesmo que burocratizadas, o PT encontrou extrema dificuldade em aplicar os pilares dos ataques impostos pelo imperialismo, principalmente a Reforma da Previdência, a Reforma Trabalhista e o amplo corte nas contas públicas, principalmente nos investimentos produtivos, nos programas sociais e na incorporação da burocracia sindical, política dos movimentos sociais. Se tivessem sido adotadas tais medidas pelo governo Dilma, a base petista se desagregaria, com a perda do apoio dos principais sindicatos, pois a própria burocracia sindical enfrentaria o risco de ser ultrapassada pelo crescente descontentamento e o aumento da radicalização dos trabalhadores.
  3. O governo Dilma, na tentativa de “manter a governabilidade”, foi transformado num espantalho que ficou dançando na corda bamba, entre a pressão popular e do imperialismo. Vários ministérios e diretorias das empresas públicas foram controlados por reconhecidos direitistas. A musa dos latifundiários, o setor mais reacionário da burguesia nacional, Kátia Abreu, foi colocada à frente do Ministério da Agricultura e apareceu como amiga íntima da Dilma. A reforma agrária foi paralisada e os recursos públicos direcionados para o nefasto “agronegócio”. Um ex presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria) à frente do Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio. O próprio Kassab à frente do Ministério das cidades. Mais participação do PMDB. Mil conchavos com os partidos burgueses, os grandes empresários e o imperialismo, mas, mesmo assim, o governo do PT encontrou enormes dificuldades para aplicar os ataques que o imperialismo impunha. Precisou recuar da tentativa de aplicar a Reforma da Previdência. O acordo com o vampiro José Serra, sobre a entrega do Pré-Sal para os monopólios, criou um gigantesco mal estar. A aprovação da lei Anti-terrorista, que representou uma imposição direta do imperialismo norte-americano, também gerou um gigantesco mal estar, apesar da tentativa, sem sucesso, de desvincular da criminalização dos movimentos sociais. A Reforma Trabalhista contou com o entrave da CUT, mas finalmente avançou com Temer com a conivência da burocracia sindical e de todos os partidos políticos oficiais.
  4. A nova onda dos ataques da direita contra o PT aconteceu a partir da substituição do banqueiro Joaquim Levy pelo “desenvolvimentista” Nelson Barbosa. No início do mês de março de 2016, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) manteve a Selic (taxa básica de juros) em 14,25%. Na semana anterior, no Programa Roda Viva, da TV Cultura, economistas que assessoram o governo do PT, como o ex ministro da Fazenda Bresser Pereira e Luiz Gonzaga Beluzzo, colocaram vários dos eixos dessa política “desenvolvimentista”, que os grandes bancos e os especuladores em geral repudiaram. O próprio programa de “salvação da economia” do governo, apresentado depois, representou a tentativa de voltar a aplicar as políticas do governo Lula, de maneira requentada.
  5. Os monopólios imperialistas não querem saber de “desenvolvimentismo”. Eles querem aumentar a espoliação do Brasil para conter a queda dos lucros, provocada pelo aprofundamento da crise mundial, principalmente por meio da especulação financeira. O problema posto é como fazer isto mantendo a máxima estabilidade social possível.
  6. Se tratou de duas políticas. A do governo do PT, que se valeu da criação de um colchão de controle por meio dos programas sociais e da cooptação do movimento sindical e social, e de partidos de esquerda, e da criação da frente popular. A política da direita teve como modelo o governo Macri na Argentina, Peña Nieto no México, Juan Manuel Santos na Colômbia ou até o falido Sebastián Piñeira no Chile. Tratou-se de uma direita semi tradicional que buscava entrar, aplicar pelo menos uma parte da cartilha «neoliberal» contra os trabalhadores, ainda não aplicada, sair, abrir espaço para os governos de frente popular acalmar os ânimos e voltar novamente. No Brasil, essa política é representada principalmente pelo Psdb. O problema é que essa política também não teve condições de manter os lucros dos monopólios no contexto do aprofundamento da crise e abriu caminho para uma política mais dura e golpista, representada por Bolsonaro, que acabou sendo eleito em conchavo com o PT, e que terminou com o governo da frente amplíssima de Lula-Alckmin, apoiada pelos mesmíssimos golpistas que mandaram Lula à cadeia.

Lula a serviço do povo brasileiro?

  1. A prisão de Lula em abril de 2017 provocou uma enorme indignação entre a base e os simpatizantes do PT. Em Congonhas, na Sede Nacional do PT e na quadra do Sindicato dos Bancários, na cidade de São Paulo, o espírito era de ir para as ruas para enfrentar a direita. O mesmo espírito cresceu nas principais cidades do país. Na Sede Nacional, um jornalista da Globo chegou a ser identificado aos gritos da base petista que chamava para “enchê-lo de porrada”. O discurso da FUP (Federação Única dos Petroleiros) foi, como não podia deixar de ser, o mais radical de todos.
  2. A direção do PT manobrou para concentrar os manifestantes nas sedes dos sindicatos e impedir que eles fossem para as ruas. O espírito era ocupar tudo o que fosse preciso. Lula voltou a aplicar a velha e conhecida política burocrática, que ele tinha aplicado com sucesso quando quebrou as greves dos metalúrgicos do ABC, há quase quatro décadas. Na quadra dos Bancários, ele pronunciou um longuíssimo discurso onde o direcionamento foi no sentido de que ele próprio, o Lula, tinha sido o melhor presidente do Planeta no início deste século, que ele tinha um ótimo relacionamento com o direitista George W. Bush (sim o mesmo que invadiu o Iraque!), que os grandes empresários tinham ganhando muito dinheiro com ele, e que deviam continuar ganhando, e que os programas sociais e o crescimento do Brasil, nos governos dele, tinham sido os melhores da história do Brasil. Nesse sentido, a solução para os problemas seriam, supostamente, ele ir para as ruas para fazer a campanha para as eleições de 2018 e, por tabela, para as eleições municipais de 2016. Nem uma palavra sobre a direita e a escalada golpista, ou sobre a crise capitalista e, muito menos, sobre qualquer mudança estrutural. Nem uma palavra sobre a auditoria da ultra corrupta dívida pública, vetada por Dilma, ou sobre as mega fraudulentas privatizações. Nem uma única palavra sobre ir às ruas para enfrentar o golpe ou sobre a necessidade de enfrentar o cartel encabeçado pelo punhado de famílias que controlam as concessões da imprensa como se fossem capitanias hereditárias.
  3. Em 2002, Lula subiu ao Planalto por causa da política de conciliação e de submissão ao imperialismo. O principal cabo eleitoral foi FHC, que tinha ficado com a “língua de fora” por causa da aplicação das políticas «neoliberais» que entregaram o Brasil numa escala sem precedentes. Os figurões do Psdb até chegaram a acompanhar uma delegação encabeçada pelo próprio Lula aos Estados Unidos para prometer ao próprio Bush que os acordos e o entreguismo seriam mantidos.
  4. O primeiro governo do PT, baseado na política de contenção das massas, começou a entrar em crise em 2005, quando estourou o escândalo do Mensalão. A direita, mesmo sem fôlego eleitoral, queria voltar ao governo “queimando” o PT. A crise voltou a estourar novamente em 2012, com a retomada do processo do Mensalão nas mesmas semanas do primeiro e segundo turno das eleições municipais. Voltou a escalar em 2014 com a campanha contra a Copa, promovida pela direita. E voltou escalar em 2016. Não por acaso, a cotação do dólar caiu e o índice Ibovespa aumentou com a notícia da delação premiada de Delcídio Amaral e com a prisão de Lula.
  5. A sucessão de governos do PT representou uma “anomalia” no controle do estado burguês pelo grande capital e demonstrou o colapso eleitoral da direita tradicional, atingida em cheio pelo colapso das políticas neoliberais a partir de 2008. A direita buscava tirar o governo do PT para aplicar o plano de ataques contra os trabalhadores que o PT não conseguia aplicar.
  6. O canto de sereia do Lula de que conseguiria “retomar o crescimento” não passou de pura demagogia e ocultou os gravíssimos problemas que enfrentava o povo brasileiro. O objetivo era, e continua sendo, usar os trabalhadores brasileiros como massa de manobra eleitoral, ocultando a gravidade da situação.

Lula e a política do imperialismo

  1. A política de colaboração de classes do PT representa um certo entrave aos planos do imperialismo por causa das dificuldades para aplicar o plano de ataques contra os trabalhadores na intensidade necessária para salvar os lucros dos monopólios. O ideal para o imperialismo seria que a direita assumisse a frente do governo e que o PT se mantivesse na linha auxiliar, em segundo plano, no papel de segurar os trabalhadores. O problema é que as contradições internas do PT, acentuadas pelas políticas de capitulação da direção e impulsionadas pela crise, tendiam a provocar o desenvolvimento de uma ala esquerda, o que acaba acentuando a necessidade da direção manobrar, tal como pode ser visto na ação do próprio Lula.
  2. A solução do imperialismo foi impôr o governo Bolsonaro sob a base do desenvolvimento do movimento fascista e nas eleições seguintes, as de 2022, voltar a impôr um governo do PT híbrido, controlado estreitamente pela direita tradicional. Um dos componentes centrais do atual governo é que os mesmos pais do Plano Real, Pérsio Arida, Armínio Fraga e Pedro Malan, desenharam a política econômica do governo Lula-Alckmin desde a Equipe de Transição.
  3. Em razão da crise do regime político, impulsionada pela crise capitalista, a direita tem enfrentado enormes dificuldades para derrotar o PT em termos eleitorais, mesmo contando com o apoio de uma imprensa cartelizada. Mas, se bem os governos do PT garantiram obscenos lucros para as grandes empresas, em primeiro lugar para os grandes bancos, hoje não conseguem aplicar os ataques que os monopólios imperialistas demandam.
  4. O grosso dos enormes volumes de recursos repassados por meio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento) e as obras do PAC (Plano Acelerado de Crescimento), que marcaram os governos do PT, foram redirecionados para os grandes bancos e a especulação financeira.
  5. O imperialismo necessita, no atual momento, não apenas paralisar e “adormecer” os sindicatos, mas impor derrotas profundas aos trabalhadores e quebrar a resistência até conseguir um rebaixamento considerável do preço da força de trabalho e das condições de vida da esmagadora maioria da população.
  6. Derrotar o PT e os sindicatos, embora não seja exatamente a mesma coisa, tem um importante ponto em comum, uma vez que é esse partido que controla a CUT, os principais sindicatos nacionais e os movimentos sociais, embora hoje tenham sido convertido em cartórios desligados dos trabalhadores. No momento atual, as direções sociais e sindicais estão burocratizadas devido à paralisia da classe operária e a cooptação mórbida pelos patrões e o governo. Mas, conforme já foi visto no Brasil no final da década de 1970 e na década de 1980, com a mobilização da classe operária, rapidamente, podem surgir oposições classistas com condições de derrubar rapidamente a burocracia sindical.

Democracia, golpismo e “luta contra a corrupção” 

  1. As crescentes dificuldades eleitorais da direita aceleraram a adoção de métodos extra-parlamentares, ou, dito de outra forma, a se comportar de forma mais golpista.
  2. O contexto regional dominado pela Administração Obama, tinha dificuldades para impor um golpe de estado pinochetista. As políticas de golpe de estado branco foram diminuídas por causa das eleições presidenciais que aconteceram nos Estados Unidos em 2016. O mesmo aconteceu no Oriente Médio, na Ucrânia e no Mar do Sul da China. A solução imperialista foi a imposição da eleição de Trump, que prometia fortalecer os Estados Unidos primeiro para depois ir à guerra. A aceleração da crise capitalista em 2019 impôs a necessidade de enormes repasses para os grandes capitalistas, o que foi realizado sob a cortina de fumaça da “pandemia”. Essa política se esgotou rapidamente, o que levou à necessidade de apear Trump e impôr os senhores da guerra do Partido Democrata, que em 2024 deverão ser novamente substituídos por Trump para voltar à política anterior, após os fracassos em Ucrânia e no Oriente Médio.
  3. O grosso das movimentações no Brasil tiveram como objetivo continuar acuando o PT, na tentativa de que fossem aceleradas as políticas de ataques e de que fosse possível garantir uma vitória da direita nas eleições municipais de 2016 e nas eleições nacionais de 2018. A perspectiva do golpe de estado branco não foi descartada, continuou em andamento e se materializou com Bolsonaro, embora que com menos intensidade. Se fosse possível aplicá-lo de uma maneira indolor, seria “maravilhoso” para a direita. Mas a prisão do Lula voltou a mostrar que as movimentações golpistas poderiam conduzir a uma gigantesca desestabilização com consequências imprevisíveis. O Brasil representa a principal potência regional latino-americana. Esse cenário poderia mudar dependendo do resultado das eleições nos Estados Unidos, do aprofundamento da crise capitalista e da evolução da situação política nacional, e principalmente internacional.
  4. A suposta “luta contra a corrupção” não passa de uma farsa e de uma campanha com objetivos específicos. O Trensalão (corrupção no Metrô de São Paulo) ou o chamado Mensalão Mineiro nunca foram investigados. A corrupção é generalizada em todas as empresas públicas, em todas as esferas públicas, inclusive porque se trata do principal mecanismo para as grandes empresas continuarem garantindo o assalto aos cofres públicos, sem os quais não há lucros. E, por outro lado, há a “corrupção legalizada”, como as escandalosas privatizações feitas nos governos FHC ou a ultra corrupta dívida pública. As pedaladas fiscais de Dilma, que foram usadas como motivos para o golpe parlamentar de 2016, pareceram um jogo de crianças com as pedaladas de Bolsonaro de 2022 que foram usadas para impôr um monte de direitistas no Congresso e nos governos estaduais, que na sua maioria passaram a fazer parte do governo Lula-Alckmin com a repressão ao golpe de estado fake de 8.1.2023.
  5. As ações extra-parlamentares não foram direcionadas somente contra o PT. Elas se dirigiram, em primeiro lugar, contra o PT, mas, o alvo principal se direcionou contra o conjunto da classe trabalhadora, suas lutas e, principalmente, suas organizações. A ofensiva, embora atingiu os dirigentes do PT, sempre teve como alvo principal o direito de organização, e de fazer greves e manifestações, entre outros. Não por acaso, assistimos tanto a prisão de dirigentes petistas como ao recrudescimento da repressão contra greves, passeatas, manifestações populares. O crescente endurecimento do regime político reflete o aprofundamento da crise e a perspectiva do acirramento do confronto de classes que é o que está colocado para o próximo período.
  6. Aqui temos uma importante conclusão política. Embora o PT e a direita representem as duas alas principais do regime burguês, a forma de dominação de classe exercida por meio delas entrou em contradição e conflito devido ao aprofundamento da crise econômica e política. Enquanto o PT governava por meio da conciliação de classes, paralisando organizações como a CUT, a UNE (dirigida pelo PCdoB), o MST e os demais movimentos sociais, a direita busca estabelecer o domínio com base na liquidação dos elementos da democracia operária. Mas conforme o PT foi sendo engolido totalmente pelo imperialismo, principalmente por meio da Operação Lava Jato e as políticas correlatas, o PT tem acelerado o giro a direita, se incorporado com mala e cuia ao governo da frente ampla direitista e liquidada de fatos os sindicatos e a maioria dos movimentos populares.

O governo Dilma e a “frente popular” deviam ser defendidos?

  1. Em benefício de quem está colocada a tal da “governabilidade”?
  2. A esquerda no geral devia ter se oposto, de maneira enérgica e mobilizando os trabalhadores e a população nas ruas, aos ataques antidemocráticos promovidos pela direita contra o PT, tais como a prisão dos dirigentes pela Operação Lava Jato, ao pedido de impeachment no Congresso Nacional, à prisão truculenta de Lula, aos ataques fascistas às sedes do PT e ao Instituto Lula etc. Os revolucionários NUNCA podem se colocar no mesmo campo da direita, como é feito, de maneira inescrupulosa e recorrente, pela esquerda pequeno-burguesa.
  3. Ao mesmo tempo, os revolucionários não devem se colocar a reboque da política de frente popular liderada pelo PT e satélites. Os governos do PT representaram um instrumento para aplicar, de maneira relativamente parcial, os ataques contra os trabalhadores e para impedir a organização independente da classe operária. A candidatura Lula não tinha nada para oferecer aos trabalhadores, muito menos em 2022, a não ser a tentativa de manter algumas migalhas repassadas pelos programas sociais, num cenário em que os recursos tendem a se tornar muito mais escassos, enquanto o grosso dos recursos continuam sendo direcionados para o grande capital que enfrenta a sua maior crise histórica. Enquanto o programa Bolsa Família, por exemplo, consumia pouco mais de R$ 22 bilhões em 2016, somente em 2015, foram repassados aos banqueiros, como juros da ultra corrupta dívida pública, nada menos que R$ 350 bilhões. Na tentativa, semi frustrada de conter a disparada do dólar, foram gastos quase US$ 100 bilhões. E o mais grave é que a política da frente popular, representa um importante entrave para a luta independente dos trabalhadores contra o capital.
  4. A esquerda burguesa e pequeno burguesa “esqueceu” os princípios fundamentais da luta da classe operária e da independência de classe. É preciso levantar as bandeiras do governo operário e popular. A única maneira de enfrentar o golpismo é por meio da mobilização e do armamento da população. As direções das empresas públicas devem ser eleitas pelos trabalhadores. Os ministros capitalistas não podem participar de um governo dos trabalhadores. A dívida pública deve ser cancelada. O sistema financeiro deve ser estatizado sobre o controle dos trabalhadores. As (ultra corruptas) privatizações devem ser revertidas sobre o controle dos trabalhadores etc.
  5. A suposta política anti-golpe, a reboque da frente popular, repete a política hiper oportunista do VII Congresso da III Internacional Comunista (1935), da frente única antifascista de Dimitrov/ Stalin, que hoje até a maioria dos “estalinistas” repudiam. Os governos do PT apodreceram e ele próprio se transformou numa das principais engrenagens que abriu caminho ao golpe do Bolsonarismo: mil capitulações, ministros da direita (em prol da governabilidade), o ajuste contra os trabalhadores (mesmo que parcial), a Lei Anti-terrorista, a entrega do Pré-Sal etc

Frente Única para lutar

  1. O conjunto dos principais grupos da esquerda se encontrava dividido em 2016, fundamentalmente, em duas alas. Por um lado, a esquerda pequena-burguesa (PSTU, Psol, PCB e outros grupos), que a pretexto de negarem a Frente Popular se colocaram no campo da direita, apoiando, direta ou disfarçadamente, as ações da direita como, por exemplo, a prisão de Lula ou as campanhas da direita do Não Vai Ter Copa, da Lava Jato ou do Mensalão. Por outro lado, a Frente Popular, encabeçada pelo PT, se colocou timidamente contra o golpismo da direita, mas a favor da política de conciliação de classes e da manutenção da capitulação ao imperialismo promovida pelas direções petistas.
  2. Naquela e na atual conjunturas, aparece, de maneira cada vez mais urgente, a necessidade da formação de uma frente única para impulsionar a luta dos trabalhadores. A luta contra o golpismo deve ser vinculada à luta contra a tentativa de descarregar o peso da crise sobre os trabalhadores, contra o ajuste. Sem a luta contra o ajuste (contra os trabalhadores) e as (vergonhosas) capitulações do governo do PT é impossível lutar contra o golpismo.
  3. A FRENTE ÚNICA da esquerda, dos sindicatos e das organizações de massa do proletariado deve ter como objetivo unificar a classe operária e suas diferentes frações por meio de ações comuns, o que deve ser feito com o auxílio de suas organizações de massa. O golpismo da direita deve ser combatido nas ruas, mas as políticas ajustadoras e a capitulação do PT devem ser denunciadas como engrenagens fundamentais que abrem passo ao golpismo. Uma defesa cega do governo do PT, um cheque em branco para a candidatura Lula, além de se encontrarem longe de resolver o problema da gravíssima crise no Brasil, representa uma enorme traição aos trabalhadores.
  4. A FRENTE ÚNICA deve aplicar a antiga divisa “caminhar separados, golpear juntos” e não abre mão, de jeito nenhum, da independência de classe do proletariado. É preciso explicar aos trabalhadores que a defesa do PT contra a direita implica em apoiar sua política, que representa um ataque aos trabalhadores. A FRENTE ÚNICA não exclui a luta contra o governo petista ajustador e capitulador. O governo do PT, apesar de ser vítima da ofensiva da direita, deve ser denunciado como instrumento que alimenta essa ofensiva.
  5. Para o próximo período, está colocado o inevitável aprofundamento da crise capitalista e, em cima desta base, a entrada em movimento, novamente, da classe operária, no Brasil e no mundo. Será a retomada, numa escala ainda superior, do movimento grevista da década de 1980, que, no Brasil, atingiu o pico com a formação da CUT em 1983 e as 15 mil greves de 1985, mas que foi sufocado pelas políticas neoliberais. O novo período de ascensão operária colocará, também de maneira inevitável, à ordem do dia a criação de um partido operário, revolucionário e de massas, independente de todos os setores da burguesia e de todos os partidos integrados ao regime burguês. Isso não tem nada a ver com a “eleição de deputados”, que é a principal pauta, na prática, de boa parte da esquerda pequeno burguesa, e muito menos com a eleição de Lula em 2018 ou a defesa das capitulações do PT. Esses agrupamentos deverão ser varridos do mapa pela nova ascensão das massas e uma nova esquerda revolucionária deverá ser formada. Rachas no PT, e até nos demais partidos, deverão ser colocados à ordem do dia, separando as alas direita dos elementos revolucionários que deverão se fortalecer conforme a ascensão dos trabalhadores acontecer. A história mundial está cheia de exemplos neste sentido. A análise profunda da história e das revoluções tornou-se uma tarefa fundamental para compreender a realidade atual.
  6. O que está colocado é levantar as bandeiras operárias e a luta pelas questões que podem tirar o Brasil, e os demais países, da crise, as medidas que passam pela luta contra o grande capital (o chamado 1% que governa o mundo) e a sobrevivência dos trabalhadores, que, cada vez mais, ficarão mais encurralados pelos capitalistas. Essas bandeiras foram abandonadas pela esquerda oportunista. Sem uma avaliação profunda da realidade e, sobre esta base, o estabelecimento de uma política correta, esta luta fica inviabilizada ou, pelo menos, errática. Esta luta passa pelo rompimento com a frente popular e a política pequeno burguesa da frente de esquerda eleitoralista ou de posicionar-se no mesmo campo da direita.
  7. No presente momento, a tarefa colocada é a formação de centros aglutinadores de agitação e propaganda que aglutinem os revolucionários em torno à imprensa revolucionária, que funcione como instrumento de organização real dos próprios revolucionários, dos trabalhadores e dos oprimidos que começam a dar sinais, cada vez mais claros, de que começou a acordar do longo sono «neoliberal».

Que a crise seja paga pelos capitalistas!

Pelas liberdades democráticas e os direitos dos trabalhadores!

Pela organização independente dos trabalhadores!

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